Lanceiros Negros: a história dos soldados negros que lutaram por liberdade na Revolução Farroupilha

 A participação dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha revela um dos capítulos mais complexos e dolorosos da formação histórica do Rio Grande do Sul. Formado majoritariamente por homens negros escravizados e libertos, o contingente atuou ao lado dos farroupilhas entre 1835 e 1845, em muitos casos motivado pela promessa de liberdade ao fim do conflito. Registros históricos apontam que os negros chegaram a representar parcela significativa das tropas rebeldes.

Os Lanceiros se destacaram especialmente pelo combate a cavalo e pelo uso de lanças. A expectativa de conquistar a liberdade transformou a participação desses homens em uma questão que ultrapassava os objetivos políticos da elite farroupilha. A Revolução Farroupilha tinha entre suas principais motivações interesses econômicos e políticos das elites provinciais, e a abolição da escravidão não constituía seu objetivo central. Para os combatentes negros, entretanto, a guerra também representava a possibilidade concreta de romper com a condição de escravizados.

Foto de Marcio Pimenta

O Massacre de Porongos

Na madrugada de 14 de novembro de 1844, em Cerro dos Porongos, na região que hoje pertence a Pinheiro Machado, ocorreu o episódio que entraria para a história como Massacre ou Traição de Porongos. Tropas imperiais comandadas por Francisco Pedro de Abreu, conhecido como Moringue, atacaram o acampamento farroupilha. Os Lanceiros Negros estavam em situação particularmente vulnerável e haviam sido privados de parte de seu armamento na véspera. Mais de cem combatentes negros morreram, segundo diferentes registros históricos.

A possibilidade de que o ataque tenha sido resultado de um acordo entre lideranças farroupilhas e o comando imperial permanece como uma das questões mais debatidas pela historiografia. A chamada “Carta de Porongos”, atribuída a Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, e outros indícios são utilizados por historiadores que defendem a tese da traição. A autenticidade e a interpretação desses documentos, porém, são objeto de controvérsia. O que permanece documentado é que os combatentes negros foram surpreendidos em condições desfavoráveis e sofreram perdas expressivas.

Uma memória que começa a ser recuperada

Durante décadas, a participação negra na Revolução Farroupilha recebeu espaço limitado nas narrativas tradicionais sobre o conflito. Nos últimos anos, pesquisadores, instituições culturais e movimentos ligados à memória afro-gaúcha passaram a ampliar esse debate. Em 2026, o Museu de História Julio de Castilhos e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul anunciaram a exposição “Heroísmo Farroupilha – Um Outro Olhar sobre os Lanceiros Negros”, dedicada justamente à participação de combatentes negros e indígenas na Guerra dos Farrapos.

Em Pinheiro Machado, onde está localizado o Cerro dos Porongos, também avança o projeto
de criação de um Memorial dos Lanceiros Negros. A proposta prevê um espaço dedicado à preservação da memória, pesquisa, educação patrimonial e visitação, transformando o local do massacre em referência para a compreensão da história negra no Rio Grande do Sul.

Resgatar a trajetória dos Lanceiros Negros significa ampliar a compreensão sobre a Revolução Farroupilha e reconhecer que diferentes grupos viveram aquele conflito a partir de interesses e expectativas distintas. Para muitos daqueles homens, a guerra não representava apenas uma disputa política entre farroupilhas e Império, mas uma possibilidade de conquistar aquilo que lhes havia sido negado: a liberdade. A memória de Porongos permanece, assim, como uma questão histórica e também como um debate sobre racismo, escravidão, identidade e formação social do Rio Grande do Sul. 

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