Antônio Carlos Côrtes: de Cidadão Viamonense a patrono da Feira Literária que celebrou a diversidade cultural
Escritor, jornalista, advogado e uma das figuras históricas do movimento negro gaúcho foi homenageado na 19ª Feira Literária de Viamão, cidade que escolheu como sua “terra do coração”
A homenagem ganhou significado especial porque Côrtes já possuía uma ligação institucional e afetiva com o município. Em novembro de 2021, ele recebeu da Câmara Municipal o Título de Cidadão Viamonense, concedido por meio do Decreto Legislativo nº 1/2021. A honraria reconheceu sua atuação profissional, social e cultural e, principalmente, sua contribuição para o movimento negro gaúcho e para as políticas públicas de promoção da igualdade racial.
“Eu escolhi Viamão”
Natural de Porto Alegre, Antônio Carlos Côrtes nasceu em 26 de dezembro de 1948. Sua ligação com Viamão, entretanto, vem de sua família. Sua mãe, Isolina dos Santos Côrtes, nasceu em Rio Pardo e viveu cerca de 60 dos seus 104 anos em Viamão. Foi essa relação familiar que aproximou Côrtes da cidade desde cedo.
Ao receber o título de cidadão viamonense, ele explicou que existe uma diferença entre o lugar onde uma pessoa nasce e aquele que escolhe como referência afetiva.
“Eu costumo afirmar que a gente não escolhe o local em que vai nascer, são os nossos pais, mas depois de adultos, escolhemos uma Terra como sendo do nosso coração, e eu escolhi Viamão”, afirmou Côrtes à Prefeitura. Ele mantém residência no bairro Sítio São José.
A declaração ajuda a compreender por que a homenagem de 2025 teve uma dimensão diferente de uma simples escolha institucional. Viamão já havia incorporado Côrtes à sua própria história.
Uma homenagem que reuniu literatura e memória
A escolha do escritor como patrono da FLIV ocorreu em um momento particularmente significativo de sua carreira.
Côrtes já ocupava, desde 2023, a cadeira nº 11 da Academia Rio-Grandense de Letras. Ele se tornou o terceiro homem negro a integrar a instituição e levou para uma academia tradicional da literatura gaúcha uma trajetória construída também fora dos círculos literários convencionais.
Como escritor, publicou “Bailarina do Sinal Fechado”, “Rua da Praia 40º” e “Degraus da Vida”. Sua produção literária soma-se a uma carreira que passou pelo jornalismo, rádio, televisão, Direito e atuação em instituições culturais.
Na FLIV, essa trajetória foi apresentada a estudantes, leitores e moradores de Viamão. O evento contou com autores, artistas, atividades educacionais, apresentações culturais e participação de representantes de diferentes segmentos da produção cultural.
Mais de 80% da programação valorizou culturas afro-brasileira e indígena
A edição de 2025 da Feira Literária de Viamão adotou uma característica particularmente significativa: mais de 80% dos autores convidados estavam vinculados à cultura afro-brasileira ou indígena, segundo informações divulgadas pela organização.
Além de Côrtes, participaram da programação escritores como Lúcia Tucuju, Cristino Wapichana, Cacique Maurício Vén Tánh, Lilyan Teles e Angela Xavier. O conteúdo foi levado também às escolas municipais, ampliando a participação de crianças e adolescentes.
A programação não ficou restrita aos livros. Houve contações de histórias, teatro, música, atividades escolares, participação de autores locais e espaços dedicados à produção indígena e quilombola.
A escolha de Côrtes como patrono, nesse contexto, ganhou uma dimensão simbólica: sua trajetória pessoal conecta literatura, educação, cultura afro-brasileira e memória histórica.
O homem que ajudou a criar o 20 de Novembro
Por trás do escritor e acadêmico existe ainda uma história que ultrapassa a literatura.
Antônio Carlos Côrtes foi um dos fundadores do Grupo Palmares, movimento criado em Porto Alegre no início da década de 1970. O grupo foi formado por jovens negros que passaram a discutir história, literatura, artes e a necessidade de uma nova perspectiva sobre a população negra brasileira.
Entre seus integrantes estavam Oliveira Silveira, Antônio Carlos Côrtes, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes, Jorge Antônio dos Santos e Luiz Paulo Assis Santos.
As reuniões aconteceram em diferentes espaços de Porto Alegre, incluindo encontros nas proximidades da antiga Casa Masson, na Rua da Praia, residências de integrantes e o ambiente universitário da UFRGS. A escolha do nome Palmares esteve relacionada às pesquisas sobre a resistência negra e à figura de Zumbi dos Palmares.
O movimento passou a defender o 20 de Novembro como data de referência para a população negra, em contraposição à centralidade do 13 de Maio, data da assinatura da Lei Áurea.
A primeira celebração ocorreu em Porto Alegre em 1971.
Décadas depois, a iniciativa ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Sul e o 20 de Novembro tornou-se uma das principais datas do calendário nacional de combate ao racismo e valorização da cultura negra.
O único fundador vivo
Esse aspecto torna a trajetória de Côrtes particularmente singular.
A Câmara de Viamão destacou, ao conceder o título de cidadão ao escritor, que ele era o único sobrevivente entre os quatro idealizadores do 20 de Novembro mencionados na homenagem. A própria Prefeitura, ao anunciá-lo como patrono da FLIV, também o apresentou como o único membro fundador vivo do Grupo de Pesquisas Palmares.
Isso transforma Côrtes em uma fonte de memória particularmente importante. Ele não conheceu essa história apenas por meio de documentos: participou diretamente das discussões que ajudaram a construí-la.
Uma carreira que passou pelo Direito e pela comunicação
A trajetória profissional de Côrtes é igualmente extensa.
Ele estudou em Porto Alegre, concluiu o ensino médio no Colégio Marista Champagnat e graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1976.
Antes e depois da formação jurídica, trabalhou por 26 anos no Banrisul. Como advogado, atuou nas áreas civil e criminal. Também ocupou funções públicas, entre elas a de secretário-geral da Junta Comercial do Rio Grande do Sul (Jucergs) e assessor superior da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa gaúcha.
Na comunicação, passou por diferentes veículos. Foi apresentador, repórter e produtor da TV Guaíba, comunicador da Rádio Princesa e posteriormente esteve ligado às transmissões carnavalescas da Rádio Farroupilha, RBS TV, Rádio Gaúcha, Rádio e TV Bandeirantes e outros veículos.
Sua relação com o Carnaval de Porto Alegre se estendeu por décadas. Foi apresentador, narrador, repórter e comentarista, além de ter participado de debates e iniciativas voltadas à preservação e discussão da cultura carnavalesca.
Também integrou o Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre e posteriormente presidiu o Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul.
Viamão como território de afeto e cultura
A escolha de Côrtes para patrono da FLIV também pode ser compreendida dentro de uma estratégia cultural mais ampla do município.
A feira de 2025 procurou aproximar literatura, educação, diversidade e identidade local. A programação incluiu livreiros, autores, instituições culturais, escolas, representantes de comunidades indígenas e quilombolas e organizações da sociedade civil.
Para Côrtes, a experiência teve também um significado pessoal.
Em artigo publicado posteriormente, ele descreveu a experiência de atuar como patrono e relatou o contato com estudantes da rede municipal. Afirmou ter acompanhado “muitos sorrisos, gargalhadas e sede de saber”, destacando o impacto da feira sobre crianças, adolescentes e adultos.
A declaração revela uma inversão interessante em sua trajetória: alguém que durante anos analisou e defendeu a importância das feiras literárias enquanto conselheiro de cultura passou a ocupar o outro lado, como homenageado e patrono de uma delas.
Da academia à Sapucaí
A homenagem em Viamão ocorreu no mesmo período em que a trajetória de Côrtes ganhou projeção ainda maior no cenário nacional.
Durante a pesquisa para o Carnaval de 2026 da Portela, pesquisadores da escola carioca mergulharam na história negra do Rio Grande do Sul, investigando o Batuque, o Príncipe Custódio, a ancestralidade africana, os Lanceiros Negros e a origem gaúcha do 20 de Novembro.
Nesse processo, Côrtes tornou-se uma referência fundamental por sua ligação direta com o Grupo Palmares e com a história da criação da data.
Assim, sua trajetória passou a conectar três espaços distintos: a memória do movimento negro gaúcho, a literatura e o Carnaval brasileiro.
Um legado que ultrapassa a literatura
A escolha de Antônio Carlos Côrtes como patrono da 19ª Feira Literária de Viamão não foi apenas uma homenagem a um escritor.
Foi também o reconhecimento de uma trajetória que atravessa diferentes áreas da vida cultural e social do Rio Grande do Sul.
Côrtes participou da criação de um dos mais importantes marcos do movimento negro brasileiro, atuou durante décadas na comunicação, tornou-se advogado, escritor, conselheiro de cultura e acadêmico de letras e recebeu reconhecimento institucional em Viamão.
Ao receber o título de Cidadão Viamonense, afirmou ter escolhido a cidade como sua “terra do coração”. Quatro anos depois, ao tornar-se patrono da principal feira literária do município, essa relação ganhou uma dimensão pública.
E, ao mesmo tempo em que era celebrado em Viamão, sua história ajudava a despertar o interesse de uma das maiores escolas de samba do Brasil.
A trajetória de Antônio Carlos Côrtes, portanto, passou a representar algo maior do que uma carreira individual. Ela se tornou uma ponte entre memória, literatura, comunicação, identidade negra e cultura gaúcha.

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