Antônio Carlos Côrtes relembra a origem do 20 de Novembro em Porto Alegre
A entrevista ganha importância porque Côrtes não fala apenas como pesquisador ou personagem posteriormente identificado pela historiografia. Ele participou daquele processo. O Grupo Palmares reuniu jovens negros interessados em discutir a história, a cultura e a realidade social da população negra brasileira em um período marcado pela ditadura militar. A escolha do 20 de Novembro surgiu justamente da necessidade de estabelecer uma referência diferente do 13 de Maio, associado à assinatura da Lei Áurea.
A mudança de perspectiva era significativa. Em vez de colocar a princesa Isabel e a assinatura da Lei Áurea no centro da narrativa, o movimento passou a valorizar Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão. A proposta deslocava o foco da ideia de uma liberdade concedida para a valorização da luta protagonizada pela própria população negra.
Porto Alegre no centro de uma mudança histórica
A história ganha uma dimensão ainda maior porque a iniciativa nasceu no Rio Grande do Sul, Estado que muitas vezes é apresentado nacionalmente a partir de uma identidade associada principalmente à imigração europeia.
Foi em Porto Alegre que integrantes do Grupo Palmares começaram a construir uma nova leitura sobre a história negra. A primeira celebração do 20 de Novembro ocorreu em 1971, no Clube Social Negro Marcílio Dias.
A partir daquele movimento local, a ideia ultrapassou as fronteiras do Estado e passou a ser incorporada por organizações do movimento negro em outras regiões brasileiras. Anos depois, o 20 de Novembro seria oficialmente reconhecido como Dia Nacional da Consciência Negra.
O próprio TRT-RS destacou Côrtes justamente por essa condição histórica: ele é um dos fundadores do grupo que idealizou a data.
Uma trajetória que vai muito além do Grupo Palmares
A importância de Antônio Carlos Côrtes não se limita à participação na criação do 20 de Novembro.
Advogado, jornalista, escritor, radialista e agente cultural, ele construiu uma trajetória de décadas ligada à comunicação e à cultura no Rio Grande do Sul. Sua atuação também esteve fortemente associada ao Carnaval de Porto Alegre, área na qual se tornou uma referência como comunicador.
A literatura foi outro campo de sua atuação. Côrtes publicou obras e desenvolveu uma produção marcada por memória, identidade, cotidiano e questões sociais.
Em 2023, sua trajetória literária e cultural foi reconhecida com a posse na Academia Rio-Grandense de Letras, onde passou a ocupar a cadeira nº 11. A entrada na instituição representou também um marco de representatividade, já que Côrtes se tornou um dos poucos homens negros a integrar a academia.
O reconhecimento de Viamão
A trajetória do escritor e ativista também possui uma ligação importante com Viamão.
Côrtes recebeu o título de Cidadão Viamonense, reconhecimento concedido pelo município por sua contribuição cultural e social. Posteriormente, sua relação com a cidade foi reforçada com a escolha de seu nome para ocupar posição de destaque em evento literário municipal.
Esse reconhecimento amplia a dimensão regional de sua trajetória. Côrtes não é apenas uma personalidade ligada à história de Porto Alegre: sua atuação alcançou diferentes municípios e instituições do Rio Grande do Sul.
Da história do Grupo Palmares à Portela
A entrevista do TRT-RS também ajuda a compreender um episódio mais recente da trajetória de Côrtes.
Durante a pesquisa realizada pela Portela para o Carnaval de 2026, a escola carioca mergulhou na história da população negra do Rio Grande do Sul. O trabalho resultou no enredo dedicado ao Príncipe Custódio, à ancestralidade africana, ao Batuque e às manifestações da cultura afro-gaúcha.
Nesse processo, a história do Grupo Palmares e a origem gaúcha do 20 de Novembro apareceram como elementos fundamentais.
Côrtes tornou-se, portanto, uma ponte entre duas épocas: a geração que, em plena década de 1970, discutia a necessidade de uma nova representação da população negra e o Carnaval de 2026, quando uma das maiores escolas de samba do país levou essa história para a Marquês de Sapucaí.
Uma memória que permanece viva
A entrevista concedida ao TRT-RS em 2024 tem justamente esse valor documental. Ao falar sobre o 20 de Novembro, Côrtes ajuda a preservar a memória de um movimento que poderia ser reduzido a datas e documentos, mas que foi construído por pessoas que se reuniram, discutiram e decidiram questionar a forma como a história negra era contada.
Mais de 50 anos depois da primeira celebração do 20 de Novembro, a trajetória de Antônio Carlos Côrtes permanece conectada a essa história.
Ela passa pelo Grupo Palmares, pela criação do 20 de Novembro, pelo jornalismo, pelo rádio, pelo Carnaval, pela literatura, pela Academia Rio-Grandense de Letras, por Viamão e, mais recentemente, pela pesquisa da Portela sobre a cultura negra do Rio Grande do Sul.
É justamente essa continuidade que transforma Côrtes em uma fonte histórica particularmente relevante: ele não apenas estudou a história do movimento negro gaúcho — ele participou de um dos capítulos que ajudaram a mudar a história do movimento negro brasileiro.
Fonte principal: Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS), entrevista publicada em 20 de novembro de 2024.

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